Tem um velho ditado: “Não sabe beber, bebe leite”. Aí você arrisca, resolve encher-se de uísque e passa vergonha em público. Era melhor ter treinado antes, sozinho.
O caso aqui é parecido. Caso não esteja seguro o suficiente para manejar certas expressões, não brinque nos seus escritos públicos, muito menos de reproduzir fórmulas comuns. É meio caminho andado para derrapar.
Por que as frases abaixo estão erradas?
Segue os anexos. Encontra-se decisões nesse sentido. Interessa a este estudo os efeitos da decisão. Necessário se faz a investigação das provas.
Resposta: Porque quem as escreveu não sabe lidar muito bem com a ordem indireta.
Se você suspeita que de vez em quando deixa escapar uma dessas, nem tudo está perdido. Eu duvido que você erre novamente quando escrever da forma normal, padrão, direta, bonita, limpinha, cheirosa... (Ops! Empolguei.)
Os anexos seguem. Decisões nesse sentido são encontradas. Os efeitos da decisão interessam a este estudo. A investigação das provas se faz necessária.
Pela regra de transição do novo acordo ortográfico, temos até o final de 2012 para nos adaptar totalmente. Se você ainda não começou a estudá-lo, está perdendo tempo. Não dá pra aprender tudo de uma vez.
Neste post eu vou ensinar a técnica que me fez atualizar todos os meus textos antigos para que sejam publicados na nova redação. Afinal, eu não quero que eles fiquem com cara de defasados em pouco tempo. De quebra, com a prática, incorporei 95% do que preciso.
Considerando que você usa o Word, Ctrl U pra que te quero!
1. Localize todo ü e substitua por u;
2. Éi e ói por ei e oi, desde que não estejam na última sílaba (Exemplo: destrói permanece assim, panaceia fica sem acento);
3.Êe e ôo por ee e oo;
4. Gúe, gúi, qúe, qúi viram gue, gui, que, qui;
Tenha cuidado para não alterar os textos de citações diretas.
Neste ponto do serviço, você provavelmente já procedeu a 90% das mudanças necessárias. Agora vem o trabalho de formiguinha.
5. Tire os acentos de i e u em paroxítonas quando precedidos de ditongo (esta é chata). Exemplos: feiúra e taoísmo;
6. Elimine os acentos diferenciais, como o de pólo, palavra comum especialmente para os processualistas;
7. Revise cada hífen utilizando esta prática tabela. Ela vai fazer você dominar as novas regras a partir dos exemplos e do exercício constante.
Imagine-se um cirurgião plástico que faz lipoaspiração. Aqui está seu paciente:
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Diante da complexidade da sociedade atual, é importante perceber que é cada vez mais necessária a existência de um mínimo de segurança no sentido de que as pessoas possam realizar suas atividades e confiar que eventuais prejuízos causados por terceiros com quem lidam sejam devidamente indenizados.
Sendo assim, ressalta-se que a reparação civil existe para garantir que o justo não pague pelo erro de outro. Vale frisar que essa responsabilidade é uma medida que determina os critérios de reparação do dano moral ou patrimonial. Nesse sentido, vê-se que o nosso Código Civil baseia-se na noção da existência de culpa do agente para que haja responsabilização.
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Vê algum problema com ele? Não? Então você é um forte candidato à vaga do açougue da vizinhança, pois provavelmente sabe encher linguiça.
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Eu vejo oito quilos – não kilos – de pura gordura a serem extraídos desse texto e, como tal, só diminuem o seu valor.
Ligando as luzes e passando o bisturi:
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Diante da complexidade da sociedade atual, é importante perceber que é cada vez mais necessárioa existência de um mínimo de segurança no sentido de quepara que as pessoas possam realizar suas atividades e confiar que eventuais prejuízos causados por terceiros com quem lidam sejam devidamente indenizados.
Sendo assim, ressalta-se que a reparação civil existe para garantir que o justo não pague pelo erro de outro. Vale frisar que essa responsabilidade é uma medida que determina os critérios de reparação do dano moral ou patrimonial. Nesse sentido, vê-se que o nosso Código Civil baseia-se na noção da existência de culpa do agente para que haja responsabilização.
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Enxugar sua língua ajuda você a mostrar seu conteúdo de verdade.
Agora eu te pego de jeito! Duvido que você acerte quais destes ditos estão indefectíveis. Pegue uma caneta e marque aí na tela do computador:
( ) Defiro o pedido, haja vista às razões do autor. ( ) ...haja vista das razões do autor. ( ) ...haja vista as razões do autor. ( ) ...haja vistas as razões do autor. ( ) ...haja visto o motivo exposto. ( ) ...hajam vista as razões do autor. ( ) ...haja em vista as razões do autor.
Se eu dissesse que estão todos certos?
Não acredita em mim?! Eu entendo. Mas faça a gentileza (para si mesmo) de crer no Houaiss:
a loc. haja vista pode reger ou não as prep. a (lutaremos, haja vista [a]o armamento que já reunimos) ou de (haja vista [d]as razões expostas); tb. pode manter-se invariável (haja vista as armas que já reunimos) ou pode flexionar o subst. vistahaja vistas as armas; haja visto o armamento que reunimos) ou o verbo haverhajam vista os argumentos apresentados); quando rege a partícula em, permanece invariável (haja em vista as armas)
A gramática é como o Direito. Dentro de alguma moldura, estamos livres para interpretar suas normas.
Já comecei a ouvir desabafos das pessoas que se incomodam com erros na linguagem. Num desses ambientes acadêmicos ou pelas vias – não ruas – de Brasília, me chega uma voz decepcionada: “Pois é, o professor Gilmar não só usa crase como a defende. Disse que ‘interpretação conforme’ já virou uma expressão. Nem entendi aquela loucura.”
Confirmei o fato diretamente na melhor fonte: sua bíblia, o Curso de Direito Constitucional escrito em coautoria com os professores Paulo Gustavo e Inocêncio. Só saber um pouquinho sobre a atuação deles pra identificar que parte da premiada obra cada um escreveu. Lá no controle de constitucionalidade, pulula: “interpretação conforme à Constituição”.
Para matar as dúvidas provocadas pela denúncia, pesquisei até descobrir que é possível seguir os passos do ministro.
O Houaiss diz que, como preposição, “conforme” é:
12 de acordo com; segundo, consoante
Ex.: fez tudo c. o previsto
Nada mais simples, certo? Limpinho. Sem crase. Interpretação segundo a Constituição.
Entretanto, “conforme” também pode ser um adjetivo:
5 proporcional, adequado às qualidades, ao valor de algo ou de alguém; condigno
Exs.: uma reação c. ao estímulo recebido um presidente c. ao fundador
Colocada assim, vemos que a leitura é outra: interpretação adequada ao valor da Constituição.
Qual a diferença? É bastante sutil. No segundo caso, há uma ênfase à qualificação da palavra conforme, o que confere maior solidez de sentido quando se usa a forma reduzida “interpretação conforme”. É ou não é isso pra isso que um adjetivo serve?
...Aprenda a escrever com os erros dos outros. E com os acertos também. ;)
> A foto acima foi de uma sessão de distribuição de exemplares da Constituição na Praça dos Três Poderes. Festinha de 20 anos.
Você já ouviu muita gente falar em interdisciplinariedade?
O assunto, no direito, costuma render bons debates. Mesmo sem se admitir conservadoras, muitas pessoas rejeitam que as respostas aos casos jurídicos devam ser buscadas em outros saberes. Até quando precisam de uma escapadela à filosofia ou à sociologia (parceiras antigas), dizem que a abordagem foi incorporada pelo direito.
Você já percebeu que essas pessoas falam demais? O problema não é sua teoria do direito. É o “e”.
Viu agora? Interdisciplinariedade é uma palavra inconvenientemente grande. O adequado é interdisciplinaridade.
-dade é um sufixo com muitos parentes. Um deles é -iedade. Mas é um menor, -idade, que aparece nos vocábulos: